sábado, 19 de outubro de 2013

Tia

Paulina Maria da Silva Santos Jacinto. Esta foi a mulher com mais coragem e força de viver que eu  já conheci. Não por ser minha tia, mas pela simples razão de a ter conhecido como a conheci. Sempre a conheci como uma mulher sempre com um sorriso na cara para mim, sempre tivemos uma amizade que sabia que se precisasse de alguma coisa ela estava lá, não tinha vergonha de dizer o que achava ou pensava. Enfim, era uma mulher que toda a família sabia que podia contar. Até que... Todas as vidas dão voltas. Mas esta volta não foi uma volta qualquer, foi o início do fim. Lembro-me bem daquele dia, mas não me lembro.
2008, Estava com a minha mãe e com o meu pai na loja quando ela apareceu lá, vinha do médico e estava a chorar, sentou-se à minha frente, eu estava a fazer um desenho e parei quando ela lá entrou. A minha mãe e o meu pai pararam de fazer o que estavam a fazer e vieram para o pé de mim e dela. A minha mãe perguntou-lhe: "Que se passa? Porque é que estas a chorar?". Durante segundos só se ouviu a minha tia chorar. "Tenho cancro da mama" disse ela. Tudo parou naquele momento. Fiquei estático, não sabia o que fazer. Olhei para os meus pais depois para a minha tia. A partir daí só a minha tia e a minha mão ficaram a falar, eu fui com o meu pai.
Ela começou o tratamento, ficou sem cabelo. Tiraram-lhe o peito, tudo ficou bem, pelo menos aparentava que ia ficar bem. Ela recuperou e voltou a fazer a vida normal dela.
2011, Começou a ter dores fortes nas costas. Mais uma vez, foi ao médico. Desta vez, os rins estavam a deixar de trabalhar. Foi internada para ser operada para os rins voltarem a funcionarem normalmente. Mais uma vez correu tudo bem, mas ela não recuperou totalmente e todo o organismo dela começou a deixar de funcionar. Desde 2011 até ao dia 28 de Setembro de 2013, a vida dela foi sempre casa-hospital, hospital-casa.
No dia 28 de Setembro de 2013, ela estava com dores fortíssimas e não era capaz de andar. A minha prima, telefonou a minha mãe para ir a casa dela porque a minha tia estava a sentir-se mal. Ela foi lá, chamaram os bombeiros e ela foi para o hospital, mais uma vez. A minha mãe chegou a casa e disse para o meu pai: "Estou com medo daquilo que vai acontecer a partir daqui". Desde esse dia que esteve no hospital sempre em estado grave. E eu, eu nunca a fui ver, não tive coragem para o fazer. Não sei porque estava com medo.  Ela desde que foi para o hospital, melhorou no primeiro dia, depois veio sempre a piorar.
16 de Outubro de 2013, Vim almoçar a casa porque tinha tarde livre. Cheguei a casa e vi a minha mãe a despachar-se e perguntei-lhe onde ela ia, ela disse-me que ia ver a minha tia. Não sei porque mas nesse dia perguntei-lhe se podia ir com ela, mas ela disse que não porque depois não chegava a casa a tempo do treino, e eu concordei. Lá foi a minha mãe, a minha cunhada e a minha madrinha vê-la ao hospital. Quando elas entraram no quarto onde ela estava, passado pouco tempo, a minha tia deu a ultima expiração. Eu não sabia de nada, cheguei a casa, eram 9 e meia da noite, telefonei para a minha mãe a perguntar se ela ainda demorava, ela disse que estava a vir para casa mas para eu comer qualquer coisa que ela ia chegar tarde. Eu comi e eram 11 fui deitar-me, os meus pais ainda não tinham chegado, estava sozinho em casa.
17 de Outubro de 2013, Eram 6 e meia da manha, o meu pai chegou ao meu quarto, eu estava virado para a parede e ele disse: "João" e eu respondi: "Sim?" "A tua tia morreu, agora não sei o queres fazer. Se quiseres vai à escola, se não quiseres quiseres não vás." Eu virei-me para ele e disse-lhe: "O que!?" "Sim, a tua tia morreu ontem à tarde" "Pai... Eu tenho de ir à escola porque vou ter teste hoje" "Está bem, mas podes continuar a dormir que e levo-te a ti e ao teu primo para a escola". Tentei dormir mas não consegui, dormir no máximo 5 minutos. Levantei-me, fui tomar banho, comi, tudo como um dia normal. Quando cheguei a escola fui directo para a sala. Um dos meus colegas de turma é vizinho da minha tia e disse-me: "Os meus sentimentos". Eu disse-lhe: "Obrigado". Fui para a aula, não tomei atenção nenhuma. Acabou a aula e fui ter com a minha namorada. Fui para a portaria da escola dela, à espera dela. Antes de ela aparecer veio uma das minhas melhores amigas, abraçou-me e deixei-me ir um pouco a baixo, mas fiz esforço para não chorar. Depois veio a minha namorada ter comigo. Estive com ela, mas mal falamos. Vim para a escola e fui comer. Depois fui para a minha sala. A minha melhor amiga chegou ao pé de mim e eu disse-lhe o que se tinha passado, quando acabei de falar comecei a chorar abraçado a ela. Ela acalmou-me e depois fui para a aula. Acabou a aula e vim fora da escola um bocado. Fui fazer o teste e a seguir fui-me embora para casa no autocarro, não fui capaz de estar mais tempo na escola. Vim para casa, fui ajudar o meu pai e à noite vim para casa. Cheguei a casa, comi e fui para o velório. Vi a minha tia... Fui ter com o meu primo, estava preocupado com ele. Ele tem 13 e a menina tem 8 anos e eles tinham perdido a mãe. Fui lá para fora e trouxe os meus primos cá para fora para eles não estarem lá dentro a verem a minha tia. Tentei os entreter, para não pensarem nela. Fomos para casa, o meu primo dormiu comigo.
18 de Outubro de 2013, O dia da despedida. Acordei, chamei o meu primo, descemos as escadas, comemos e despacha-mo-nos. Fomos à casa mortuária e depois viemos para casa almoçar. Depois fomos para o funeral. Eu estava bem, só tinha chorado ao pé da minha melhor amiga. Mas a minha mãe durante a missa, fui agradecer a todos os que tinham acompanhado a minha tia e toda a minha família durante estes 5 anos. Aí, sim, foi o que me levou mesmo a baixo e comecei a chorar até ao fim. Já repararam que existe mais uma estrela no céu? Pois é. É a minha tia.
Agora sim, agora podes descansar em paz. Sem que nada te afecte, sem sofreres, a seres feliz à tua maneira.
Tia eu prometo em todos os momentos proteger os meus primos acima de tudo. Obrigado por todos os sorrisos e abraços. Obrigado por teres existido na minha vida.
ÉS UM SEMPRE, UM DIA IREMOS VOLTAR A ENCONTRAR-MO-NOS.
João Martins

3 comentários:

  1. Olá! Pelo que contas, a tua tia devia ser uma verdadeira lutadora, pena lutar por tão pouco tempo, ainda tinha tanto para viver e para dar a conhecer aos teu primos.
    Os meus sentimentos e força para toda a família!

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  2. A tuas palavras emocionaram-me, porque eu conhecia bem a tua tia e os teus primos que iram à Barafunda, por vezes à Net outras ter consultas com a Psicóloga. Faço as tuas palavras "que existe mais uma estrela no céu". Força para a toda a família...

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  3. João eu não te conheço, mas conheci muito bem a tua tia. Fui da turma dela, colega de carteira dela durante três anos. Foi muito bonito o que escreveste sobre ela. Deixa-me só acrescentar que ela era muito boa amiga, boa colega e com uma força e alegria de viver fantástica. Tenho pena de me ter afastado dela, mas a nossa vida levou-nos a rumos diferentes. Eu estive no funeral dela, mas não consegui ir vê-la. Beijo grande para ti e cuida dos teus priminhos!

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